sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A relação do Cheetos e seus similares com a atmosfera metroviária

Estou pra escrever este texto há um tempão, mas sempre acontece alguma coisa que faz com que eu deixe pra depois.

Eu nunca consegui entneder direito como tem gente que come coisas tipo Cheetos. O negócio é de comer, mas tem um puta cheiro de vômito. É, vômito. V-Ô-M-I-T-O, sacou? E todo mundo sabe disso desde que aprende a mastigar e experimenta um Cheetos do amiguinho no recreio da pré-escola [aliás, que se registre que a venda desse negócio devia ser proibida, ao menos em ambientes escolares].

Pode até ser que, por um período na vida, você goste de Cheetos. É, porque o sabor, apesar do cheiro de vômito, não é dos piores. E quando se é criança, a gente não tem lá muito critério na hora de comer, não é mesmo? Contanto que não seja saudável, tá valendo. Mas para o ser humano normal, o que costuma acontecer é que, depois de uma certa idade, o futum prevaleça sobre o sabor e o indivíduo pegue nojinho de Cheetos, e todos viveram felizes para sempre.

Acontece que o mundo não é feito só de gente sensata, limpinha e cheirosa, né minha gente? E todo sem noção tem de fazer gordices. Sendo assim, bora lá abrir um Cheetos dentro do metrô lotado as seis da tarde, de preferência, no verão???

Acho incrível esse tipo. Eu o chamo de Larica Desenfreada, dado o tamanho da necessidade em que alguém tem de se encontrar pra submeter a si mesmo e aos outros presentes a uma situação tão dantesca. E o pior é que ele tem variantes. Algumas, muito particularmente encontradas em algumas estações específicas. No metrô Belém, por exemplo, o Cheetos é substituído por uma bandeijinha de isopor que suporta uma torre de batata frita encharcada em óleo e condimentada com tubos e mais tubos de ketchup, mostarda e - sempre o melhor pro final - MAIONESE! O agravante dessa fina iguaria, é que ela não só cheira como uma gorfada, como também tem aparência de uma.

Como alguém COME aquilo, eu não sei. Agora, eu compreendo menos ainda como é que alguém tem a brilhante idéia de entrar com aquilo num vagão de metrô. Vamos combinar que metrô já costuma ser lotado e quente. Aí a fulana - sim, porque normalmente, quem come essas tralhas é uma fulana, geralmente rolicinha, do tipo que não poderia por nada estar comendo um isopor cheio de calorias - adentra o recinto portando este item embrulhante de estômago cujo odor toma conta de todo o vagão. É de chorar, meus amigos.

Se você for uma pessoa que, como eu, tem cabelos longos, a situação fica ainda mais crítica, pois pode ter certeza que o ser vai ficar perto de você, e provavelmente melará o seu cabelo coma gororoba que ela está comendo, o que, by the way, ela nem vai perceber, dada a voracidade com a qual devora seus apetitosos quitutes.

Portanto, se surgir a necessidade de pegar metrô, não se dê ao trabalho de lavar seu lindo cabelo. Com certeza na volta pra casa você será obrigado a tomar um belo banho, lavar o cabelo, e ainda, colocar suas roupas de molho, afinal, cheiro de fritura não costuma sair na primeira lavada.




quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O bêbado

Dia desses estava eu em uma de minhas intermináveis viagens de metrô lotado. Eis que, em uma estação qualquer, um cara que falava ao celular entrou no vagão. Não era uma figura comum, dessas que se perdem na multidão; ele era esquisito. Exageradamente magricelo, tinha feições estranhas, mas o que realmente chamava a atenção era o fato de que ele estava bebaço e exalava um cheiro tão forte do encontro com a marvada, que o futum anunciava a sua presença a kilômetros. Como se isso não bastasse, ele falava MUITO alto ao celular. "Coisa de bêbado", pensei.

Como o metrô estava cheio e não tinha como sair de perto, além de passar a viagem toda tentando prender minha respiração de tempos em tempos por causa do fedor que ele exalava, também acabei ouvindo, involuntariamente, a maior parte de sua conversa. Era fácil perceber que ele estava falando com uma namorada. Na verdade, era óbvio, e logo vocês vão entender por quê...

A princípio, não deu pra saber exatamente qual era o assunto, mas, depois de um tempo, a conversa do bêbado foi tomando um tom mais... definido. E foi aí que eu comecei a realmente prestar atenção. O cara discutia sobre um assunto qualquer com alguém que deveria ser uma namorada ou algo do tipo, eis que, em um dado momento, ele perguntou se ela mentiria pra ele.

Apesar de não dar pra saber qual era o contexto da história, dava pra sacar que ele tinha descoberto alguma coisa sobre aquela pessoa por quem ele se enamorava - e não devia ser algo bom. Ele até pareceu controlado na maior parte do tempo, mas, quando fez aquela pergunta..... "Você não mentiria pra mim, mentiria?"... As emoções transbordaram pela sua voz. Em seguida, para não deixar dúvidas, começou a repetir e repetir que a amava num tom tão apaixonado que até eu acreditei ser verdade.

A princípio, fiquei incomodada quando ele entrou no vagão falando alto e cheirando mal, mas depois fiquei com dó. E comecei a divagar. Em primeiro lugar, a única coisa qeu passava pela minha cabeça enquanto ele perguntava se ela não mentiria pra ele foi: "como somos idiotas quando estamos apaixonados". E digo somos, porque sei que eu faria alguma idiotice parecida se estivesse no lugar dele, mesmo sabendo que sim, a outra pessoa mentiria, SIM. E obviamente, ela jamais assumiria isso pra mim.

Infelizmente, o ser humano não costuma valer a pena. E ainda que você venda sua alma pela outra pessoa, ainda que faça de tudo pra não vê-la sofrer, não pode jamais presumir que ela faça o mesmo por você. Pior ainda: provavelmente, além dela não corresponder o gesto, se ela tiver a menor desconfiança de que é muito amada, são grandes as chances dela resolver se aproveitar da situação das maneiras mais variadas.

Estava lendo outro dia um texto sobre o amor num livro chamado ''Mutações. Ensaios sobre as novas configurações do mundo'', de Adauto Novaes, e em algum lugar ele falava sobre subjugar o outro. É contraditório e é triste, mas o amor normalmente é isso. Subjugar o outro. Pessoalmente, eu acho isso infinitamente triste. Gosto e costumo - por romantismo ou talvez até ingenuidade da minha parte - tentar tratar o amor com certa pureza de sentimento. É claro que é difícil pra qualquer ser humano, já que é fácil ser tomado pela vaidade quando se percebe que o outro está muito caidinho pro seu lado. Mas deixar isso acontecer é sacanagem. É muita injustiça se aproveitar do sentimento alheio.

E eu fiquei ali pensando muito mais do que eu tenho saco pra escrever agora, com muita pena daquele menino, quase sentindo o que ele estava sentindo. Quem vai saber se não foi o desespero da decepção o responsável por aquele cheiro de álcool? Não dá pra saber, mas é o meu palpite...

Cheguei em minha estação final e desci do trem. Ele também desceu,e ainda falava ao telefone. Eu atravessei a passarela logo atrás dele e vi aquele rapaz magro, feio, bêbado e bobo se afastando. E conforme nos distanciávamos eu ouvia "eu te amo" cada vez mais baixinho, enquanto deixava escapar uma lágrima de compreensão.